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  • Adriana Rios

Será que os modelos de escritórios mudaram para sempre?

Há aproximadamente dois meses, li um artigo sobre o final dos escritórios pós-coronavírus. Foi um artigo internacional, quando a pandemia ainda não era tão forte aqui. No Brasil ainda estávamos começando a pensar em confinamento.


Basicamente falava sobre a paralização de diversas indústrias multinacionais, cancelamento de vôos, férias, quarentenas em massa, tudo que afetou o mercado financeiro, etc, e tudo o que isso impactava na continuação da existência dos escritórios tradicionais.

Deixando de lado as graves implicações para a saúde, a epidemia de coronavírus, de maneira nem um pouco ortodoxa, amplia cada dia mais o debate sobre o futuro do formato dos escritórios que tem sido tão falado em diversos posts, agora inclusive no Brasil. Um destaque especial para o post da Claudia Andrade, que indico leitura, cuja capacidade acadêmica nos toca em seus exemplos.

Mas, no geral, o que questionamos é o seguinte: com milhões de pessoas trabalhando em casa no mundo inteiro, em um formato nunca visto por tantas camadas de hierarquia de uma mesma empresa, será estamos vendo o início do fim da tipologia tradicional de escritórios?

Na verdade não acredito que haverá o final total do conceito de trabalho em edifícios de escritórios tradicionais. No entanto, esse grande experimento global em massa de home office, em uma escala nunca vivenciada, nos faz refletir que, quando a maioria das empresas, cidades e sociedades retornarem à normalidade, pode causar uma reflexão sobre os benefícios de trabalhar em casa ou, no mínimo, uma mudança na tipologia tradicional de escritório. É bem provável que muitos funcionários quando voltarem aos seus escritórios encontrarão já em um primeiro momento um escritório diferente. Em alguns espaços, através de tecnologia já disponível, é possível que o usuário seja identificado, (por exemplo, através de tag ou biometria sem contato físico), e, com isso, portas se abram de forma automática para que os ocupantes não precisem tocar em nada. Que elevadores cheguem sem a necessidade de pressionar botões. Ou, ainda, que outras adaptações que hoje já são disponíveis em alguns espaços, sejam ampliadas para mais locais com o uso da tecnologia. Também, possivelmente, as posições de cadeiras de trabalho estarão mais espaçadas, em vez de uma planta aberta lotada a qual o usuário está acostumado. Em áreas comuns, como salas de reuniões e copas, podem também ter menos cadeiras e que esteja visível para todos a documentação da última vez em que as áreas foram limpas.

Estas são apenas as possíveis alterações que poderão ser vistas. Mas, possivelmente serão implantadas políticas de limpeza mais frequentes, utilização de tratamentos antimicrobianos em tecidos e materiais, sistemas de ventilação ampliados ou até, quem sabe, a adição de luzes UV para desinfetar mais profundamente o escritório à noite.

Estamos em Abril. Desde o início do ano, milhões de funcionários chineses trabalham em casa. Nos EUA, desde gigantes como Microsoft, Google, Amazon e Facebook, até as menores empresas, disseram para os trabalhadores trabalharem em casa no início de março. E isso, hoje, ocorre praticamente no mundo inteiro.

Obviamente as empresas já tinham estrutura e tecnologia suficiente para que isso ocorresse, mas essa flexibilização de trabalho não ocorria tanto anteriormente?

O que ocorre é que de forma compulsória empresas e funcionários de todos os níveis começaram a enxergar os benefícios do trabalho remoto (total ou parcial). Ele permite que as empresas contratem melhores talentos, praticamente sem limites geográficos, diminuindo despesas gerais significativas associadas a edifícios de escritórios e suprimentos.

Existem também diversos estudos sobre o aumento da produtividade relacionado ao home office. Um deles da Universidade de Stanford de 2017 mostra que trabalhar em casa além de aumentar a satisfação dos funcionários em relação à empresa e à vida pessoal, aumentou a produtividade deles em 13,5% e reduziu os dias de faltas por motivos de saúde.

Outros estudos mostram também que mesmo antes do “confinamento compulsório” muitos funcionários já apontavam a vontade de trabalhar de forma remota, pelo menos algumas vezes por semana. O estudo do Global Workplace Analytics, por exemplo, observou que de 80% a 90% da força de trabalho dos EUA gostaria de trabalhar remotamente, pelo menos em período parcial e que, se os que trabalham em empregos compatíveis e que desejam trabalhar em casa o fizerem em regime de meio período, economizariam U$ 700 bilhões em todo o país entre empresas e funcionários, fora a economia em emissão de carbono que seria absurdamente grande.

A mesma Global Workplace Analytics está atualmente realizando uma pesquisa sobre a participação do home office. É previsto que 30% das pessoas trabalharão em casa vários dias por semana dentro de alguns anos. Ocorre que já havia essa demanda reprimida pelos funcionários por maior flexibilidade na vida profissional e a pandemia do coronavírus fez seus empregadores , até mesmo os mais céticos, enxergarem que o trabalho remoto pode funcionar, especialmente porque eles mesmos tiveram que trabalhar em casa.

E esse tipo de mudança de atitude e hábitos é de grande interesse para os arquitetos que trabalham com ambientes corporativos, pois esses novos modelos de trabalho nos levarão inevitavelmente a uma evolução no design dos ambientes corporativos, ou mesmo modelos de espaços alternativos para o trabalho.

Embora acredite que a tipologia tradicional de escritórios permaneça de alguma forma, sua arquitetura interna será fortemente influenciada por tendências como trabalho remoto, aumento de espaços colaborativos e lugares não assignados, o que já era uma tendência, mas agora vai virar realidade e aparecer de forma mais forte na grande maioria das incorporações. Dessa forma, mostram-se cada vez mais importantes softwares de gestão de facilities que ajudem a calcular dados em tempo real, como, por exemplo, a taxa de vacância, sendo possível a economia de espaços a serem construídos, permitindo que uma empresa de 3000 funcionários tenha, hipoteticamente, 2100 lugares, e atenda a todos os funcionários de forma satisfatória.

No atual momento, devido ao afastamento por conta da pandemia do coronavírus, muitas empresas tiveram que enviar cadeiras, mesas, computadores, etc, nas casas de seus funcionários a fim de proporcionar um ambiente propício para o trabalho em suas próprias casas. E se isso já fosse planejado no momento da contratação? E se os arquitetos pudessem também ajudar nesses ambientes de home office para o espaço ideal? O quanto isso acarretaria exatamente de economia para as companhias?

Segundo estimativas, 40% do espaço de mesas de escritórios já ficava sem uso em um determinado período, antes do confinamento. Em um futuro que já chegou, esse número certamente irá aumentar, a arquitetura corporativa se tornará cada vez mais flexível, adotando tons mais residenciais para aproximar o ambiente de trabalho com a casa dos funcionários.

Também existe o conceito de coworking, que já estava crescendo muito e tende a aumentar suas ocupações, com escritórios compartilhados altamente equipados permitindo que os funcionários trabalhem efetivamente com colegas de outras disciplinas, não sofrendo o isolamento físico e a solidão que pode ser a parte considerada negativa, por alguns, no trabalho remoto.

Porém, esses espaços de coworkings também podem ser afetados em suas configurações, pois, provavelmente, os espaços compartilhados e densamente ocupados darão lugar a cadeiras mais separadas, renunciam a mesas de trabalho e espaços comuns para áreas mais salubres (e menos rentáveis) privadas.

A arquitetura corporativa em sua tipologia, historicamente, já passou por muitas mudanças radicais. Na década de 40 apareceram as primeiras plantas abertas que foram tomando força e que agora representam 70% dos escritórios atuais. Depois com o boom tecnológico dos anos 90, veio o questionamento das plantas abertas sobre seus efeitos na saúde mental, produtividade e cargas de aquecimento e refrigeração, exigindo adaptações. Já nos anos 2000 surgiram novos espaços mesclando abertamente o trabalho e a diversão, implantando espaços de jogos, áreas de descompressão, dando aos escritórios um aspecto de descontração e espontaneidade. O que é então importante pensarmos e levarmos em consideração a partir de agora? Como serão os escritórios do futuro que já chegou?

Então, essa possível nova tendência de continuidade do trabalho remoto para grande parte das corporações (e não somente para alguns e de forma parcial como estava ocorrendo), certamente levará a novas configurações de espaços. Essa tendência já mostrava evidências nos detalhes dos projetos corporativos muito antes do confinamento, porém a nossa situação atual será certamente catalisadora para um relacionamento futuro mais saudável entre nós e nosso local de trabalho, seja ele como for.

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